quarta-feira, 8 de julho de 2015

Muita birita

Por Fabio Ramos
 
 


vendo
a prateleira
 

atrás
do balcão?
 

aquela
pinga
(meio turva)
nas
alturas
 

e a cobra
dentro
da
garrafa?
 

pois
é
dela
que vamos
beber
 

e
tirar
esse gosto
ruim
 

adocicar
o
bico
 

um brinde
a quem
se diz
meu inimigo!
 

e
antes
de saborear
vem o
gole
do santo
 

mas
o dono
da bodega
 

é que não
aceita
a
tradição
 

(justo ele)
 
 
que
sucede
o
comércio
do pai
 

e
carrega
na certidão
 

o mesmo
nome
do
falecido
 

terça-feira, 7 de julho de 2015

Vida

Por Denise Fernandes


Imagem: Annie Le



(Dedicado à minha mãe, Vera Lúcia Reis)

 
Salva por um beija-flor
 
Tudo por amor
 
ou Dor?
 
Quem sabe minh'alma não é pequena
 
Como a do poeta que
 
tanto Amo
 
Salva também por um enxame de libélulas
 
e por sonhos que não querem morrer
 
como eu também lutando pela minha Vida a cada
 
Minuto
 
Para ser precisa, a cada segundo!

segunda-feira, 6 de julho de 2015

filho

Por Ana Paula Perissé




                                    eu me sinto um pouco
                                    quando te olho
                                    e me vem uma alegria imensa
                                    de me saber
                                    tua mãe



                                    e eu me vejo muito mais
                                    quando te sinto
                                    aquela de mim:
                                    um pedacinho
                                    que pode ser mulher
                                    um pouco melhor.



                                    Meu filho
                                    pulsando acções e afectos
                                    descobertas,
                                    tuas...
                                    teu proprio caminho
                                    colcha de conchinhas enluaradas
                                    navega em águas
                                    nunca antes alvoroçadas
                                    por tua força de maré
                                    singular.

domingo, 5 de julho de 2015

FORA DE PRUMO

Por Oswaldo Antônio Begiato




Não quero ser
linha reta!


Não quero estar
no prumo.
Não quero estar
no nível.


Quero ser curvo!

sábado, 4 de julho de 2015

O último ato de Al Pacino

Por Meriam Lazaro




Essa era a manchete do jornal Zero Hora na tabuleta do supermercado. Dia 2 de abril não é mais dia da mentira.
– Meu Deus, mais um que se matou?! Pensei.
Com o cesto no braço, passei às compras de suprimento para os três dias da folga de Páscoa, enquanto pensava que iria rever: Perfume de Mulher, a trilogia Poderoso Chefão (desta vez sem dormir na metade), aquele da indústria do cigarro e outros.
Na saída passei novamente os olhos pela manchete acima da fotografia do ator magérrimo. A matéria estava no Segundo Caderno o que não me permitiria virar as páginas para bisbilhotar. Pensei em comprar o jornal. Teria que enfrentar fila novamente. Nem pelo Al.
Em casa liguei a TV no Jornal do Almoço. Nada! Imaginei que a tragédia havia ocorrido no dia anterior e ido ao ar de noite. A vez é do incêndio e de outros dramas globais.
Abri a página do Facebook e não encontrei qualquer homenagem ou versão apocalíptica. Seria eu a última fã? Evidente que não. Enviei um e-mail para uma amiga:
– Rita, o que aconteceu com Al Pacino? Ele morreu? Tu sabes alguma coisa?
Logo o telefone tocou e pude ouvir alguém rindo descontroladamente do outro lado. Depois que diminuiu o riso, a criatura conseguiu dizer:
– Ele está no cinema. Estreia hoje por aqui o filme “O último ato”.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

O bairro

Por Amilcar Neves*


A manhã ensolarada de domingo é um estímulo adicional a suas caminhadas diárias de exatos 60 minutos de duração pelo passeio ao longo do que resta do manguezal. Como tudo na Ilha, na cidade e no Estado, aquele resíduo de natureza vive sendo constantemente agredido em nome da corrida desenfreada ao caos e ao fim a que se dá os nomes de progresso e desenvolvimento.

Mas o dia é de sol e céu muito azul, circunstâncias que induzem a supor que a vida é bela e eterna. Valia bem deixar-se levar pelo ar fresco e pela atmosfera límpida de final de Outono. Assim, como em quase todos os dias do ano, empreendeu o sagrado compromisso consigo mesmo de sair em marcha batida por uma hora inteira.

O exercício revela-se, para ele, um momento de intensa atividade intelectual. Durante o trajeto avalia situações, analisa alternativas, traça estratégias, esboça diálogos, faz contas, desenvolve soluções, constrói planos, toma decisões, gera ideias e escreve muito. Sim, escreve um bocado durante as caminhadas, tanto que lhe doem por vezes as pernas na ânsia de chegar depressa a casa e passar tudo para o papel. Há ocasiões em que perde pelo caminho ideias brilhantes que não consegue jamais recuperar. Ou que recupera muito mais tarde, porém sem o brilho e as cores originais...

Por isso tudo, muitas vezes nem repara nas pessoas com as quais cruza, eventualmente conhecidos seus e até mesmo amigos. Por isso, foi tomado de surpresa quando o homem, um completo desconhecido, em voz clara e palavras nítidas perguntou-lhe à queima-roupa:

– Qual foi a alegria de ontem?

Lembrou-se de imediato que vestia uma camiseta com o distintivo do Avaí e riu a gosto. Por associação de ideias, recordou o único momento que viu do jogo exibido pela televisão no sábado, quando o juiz marcou um pênalti a favor do Figueirense aos 42 minutos do segundo tempo – o grande rival perdia por 3 a 2 para o Atlético Goianiense – e matou a charada na bucha:

– O pênalti perdido!

O outro fez com os dedos o sinal de positivo e ambos se afastaram, retomando o caminho em sentidos opostos. Depois ele cumprimentou o Valdir que conserta bicicletas, surpreendeu-se com uma sala para alugar, viu a moça de enormes seios com a barriga flácida à mostra, leu as palavras HARD ROCK em um shortinho, informou a um jovem casal onde havia uma cafeteria...

Pena que o bairro é muito maior do que este modesto espaço.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 17.06.2009

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Tardança

Por Fabio Ramos





ele
puxou
uma cadeira


sentou


e
pediu
um café


20
minutos
de
espera


e nenhum
sinal
do
amigo


recorreu
ao
celular


e
caiu na
caixa postal


veio outra
xícara


ele
bebeu


contou
mais
15 movimentos
do ponteiro
no
relógio


até
se
levantar
e sair