sexta-feira, 8 de maio de 2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Enigma nas sociais

Por Amilcar Neves*


Circulou tanto, e de forma tão intensa, que chegou até Manoel Osório. Se chegou até ele, avesso às coisas das tecnologias de ponta e do mundo virtual, é porque efetivamente realizou uma bela carreira.

Tratava-se de uma frase. De duas frases, se formos rigorosos e precisos. Lendo-a, lendo-as, as pessoas passavam rapidamente adiante e nem se importavam com elas. Quer dizer, não se importavam com elas mais do que pelo fato de lhes surgirem tantas e tantas vezes, e tão amiúde, como uma campanha publicitária. Reconheciam-nas mas eximiam-se de mergulhar nelas, de tentar entendê-las, saboreá-las, decifrá-las. Estas coisas demoram muito e, ao cabo, muitas vezes não levam a nada que valha a pena. Melhor partir de pronto para a próxima frase, a próxima imagem, a próxima novidade: aquilo que mal terminamos de ler, ver ou usar já passou, instantaneamente, a ser coisa velha, lida, vista e usada. Superada, pois.

O novo, o novo – há que buscar o novo, o inédito, o surpreendente, feito os fogos de artifício que explodem em cores, formas e sons diferentes e logo se apagam para dar vez a novas explosões coloridas que extraiam sinceros e ruidosos pontos de exclamação dos peitos.

Imaginem: Manoel Osório é como as pessoas que não assistem a dois segundos de qualquer telenovela ou supostas exibições de realidade ("reality shows", no idioma da matriz), mas que, ainda assim, acabam bombardeadas por comentários e fotos relacionados a essas atrações que hipnotizam as massas. Assim foi com Manoel Osório, que foge das redes sociais eletrônicas, essas nas quais muitos seguem-se mutuamente e, indiscriminadamente, abrem a intimidade ao mundo em geral, enquanto outros, bem mais pragmáticos, contentam-se em explorar comercialmente esses filões cibernéticos vendendo, para os carentes e solitários, desde produtos do mundo físico e real até ideias, conceitos e crenças do universo das autoajudas.

A Manoel Osório chegaram as frases que só intrigam o público das redes sociais pela insistente repetição com que vêm de todos os lados, e em todos os formatos inimagináveis, assim isoladas de tudo e fora de qualquer contexto. A ele, lhe pareceu que elas trazem embutido um profundo desespero, uma ampla e cabal falta de perspectivas. Por isso, grudaram nele, apesar de vistas uma única vez. Dizem:

Cinco horas depois, o mundo continua redondo. Ou, melhor, esférico.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 10.03.10

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dolores

Por Fabio Ramos
 
 


a
barriga
dói
na hora de
sair
 

a
cabeça
dói
com o
peso do chifre
 

dor
de consciência
para quem
a tem
 

o
parto
que doeu
mas
passou
 

o
cotovelo
que
doeu
e continuou
 

as dores
e a
índole
vitimista
 

(junção)
 

terça-feira, 5 de maio de 2015

A corva

Por Denise Fernandes




A corva acordou
 
e viu
 
que era tarde
 
pra recomeçar
 
A corva voou
 
e o que viu
 
abraçou
 
A corva entendeu
 
que as palavras não ficam
 
fica um certo brilho
 
no olhar
 
a alma do Outro Mundo
 
nesse mundo
 
Fica a cicatriz apagada
 
pelo
 
Tempo.
 
Temos dois destinos:
 
o de dentro
 
o de fora

segunda-feira, 4 de maio de 2015

função?

Por Ana Paula Perissé


Imagem: Anatol Knotek



                       pra quê ser poeta?


                       pra ler aquilo que ainda está para ser escrito
                       (o inútil em germe de terra)
                       transformado em sombras de nós.



                       O mundo é emaranhado de estranhas possibilidades
                       de lecturas.



                       é poeta, talvez,
                       aquele que nada lê
                       ( onde há resquicíos de 1` silêncio inaudito
                       maldito
                       que reina
                       incompreensível
                       para nós.)



                       e ainda
                       não pergunta à vida
                       vai à rocha observar seu canto
                       lasca imprestável
                       de um zumbido de vida.



                       mas o quê existe
                       insiste
                       e lá fica a nos rodear
                       com sua beleza:
                       a imensidão incontida
                       em nós
                       e no mundo.

 

domingo, 3 de maio de 2015

E agora?

Por Oswaldo Antonio Begiato




jogam uma veste
negra
confusa
sobre os paralelepípedos
da rua
e a lua
desesperadamente
lança sobre tudo
uma luz prateada...
...em vão
 
 
já não são mais
paralelepípedos
já não são mais
histórias petrificadas
apenas uma manta
uma manta negra
asfáltica
onde
não faz morada
nem a lua
nem a rua
nem luzes
nem caminhos
e a história...
...não se revela.

sábado, 2 de maio de 2015

Preciso tomar jeito

Por Meriam Lazaro




Já haviam me alertado: cuide bem de tudo, guarde as fotografias, faça uma cópia de todas as cartas, segredos da vida a dois etc. Mas eu fiz? Nem estava aí. Estava feliz. E o Fred, além de tudo, era meu amigo mais íntimo. Sabia tudo que eu lhe contara com dedos trêmulos e voz melosa. Outras vezes, falava aos gritos, mas sempre lhe confessava os sentimentos, as dúvidas, os sonhos. Tudo que se pode contar a alguém. Ou, filosoficamente, quase tudo...


Estávamos juntos há algum tempo. Sempre nos encontrávamos após o trabalho. Ele, já arrumado, pronto para a balada, me esperando em casa. Ficávamos juntos durante o final de semana, feriados, madrugadas a fio jogando conversa fora. Isto quando eu não estava muito cansada. Nestas ocasiões, ficávamos apenas ouvindo as músicas mais variadas. Desde MPB, Pink Floyd, Led Zeppelin, clássicos de todos os tempos, tambores de Minas ou simplesmente curtindo um bom filme.


Quem diria que uma relação de amor poderia se apagar de uma hora para a outra. Depois que o Fred foi internado, me disseram que três anos já é considerado muito tempo. Fred dera sinal de sua instabilidade – e eu não havia atentado para a efemeridade da vida. Que neste mundo, mais cedo ou mais tarde, tudo passa. O especialista falou, sem nenhum preparo do coração, que meu amigo já estava ultrapassado. Seria melhor eu substituí-lo. É o que farei quando me recuperar do choque.


Foi assim que perdi todos os dados que guardava de nossa vida em comum: poesias, textos, documentos, fotografias, músicas, programas etc. Fred tivera perda total por queimadura do HD (seja lá que bicho for). Quando o assunto é computador, preciso tomar jeito e fazer backup de todos os arquivos.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Distantes

Por Mayanna Velame




Gotas de sangue
pingam sobre o papel.
Palavras se perdem
nos discursos vazios.
Fragmentam-se em monossílabos
inquietos e infelizes.