quarta-feira, 8 de abril de 2015

Senhor de Si

Por Fabio Ramos
 
 


vivia com
base
no
futuro
 

o amanhã e
o depois
 

no
presente
 

vive
o hoje
e o agora
 

(sim)
(por si)
 

antes do
fim
 

terça-feira, 7 de abril de 2015

Esperançazinha

Por Denise Fernandes




concreto sentimento abstrato
 
flor poética
 
o mesmo medo atento exato
 
a espera patética
 
talvez outro fato
 
nos faça esquecer
 
o que nos faz sofrer.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Lambrusco

Por Ana Paula Perissé



 
                                    ardência de pupila
                                    que encanta
                                    em frêmitos
                                    as artérias
                                    de quem o sorve
                                    pelos simples
                                    prazer
                                    de umas poucas
                                    palavras sem representação
                                    ( tão sofridas quanto a aparição
                                    de 1´virgem)
                                    ao fundo da taça



                                    há imensidão olfativa que se preza
                                    por paisagens
                                    transfiguradas ao
                                    sabor de tua derme



                                    (à vista
                                    pequenas deformações
                                    ao olhar de reles embriagada
                                    sob o prisma
                                    do cristal tcheco)

 

domingo, 5 de abril de 2015

Ossos e Sangue

Por Oswaldo Antonio Begiato




Para que servem
os sonhos que sempre tive,
se o tempo passou
e me petrificou?
 
 
Onde posso
encontrar carne e ossos,
se tudo agora
são pedras?
 
 
Como verter
das veias, sangue,
e revelar o pulsar do coração
se pertenço ao mundo mineral?
 
 
Como amar
se minhas perdas
fizeram de meus sentimentos
uma rua ladrilhada?

sábado, 4 de abril de 2015

Coisas para fazer antes de morrer

Por Meriam Lazaro




De uns tempos para cá, inventaram que há um certo número de coisas a fazer antes da morte... Como se pudéssemos, do além-túmulo, executar algo. Pois sim!


Pior: a lista aumenta cada vez mais, segundo esses sábios que definem o que é bom e necessário para nós, simples mortais. Lembro de ter me impressionado com a indicação de cem livros para ler antes de ir pro beleléu (sugeridos por uma professora de literatura aqui do Sul). Pois bem, agora são 1001, como nas "1001 Noites", obra que inicia as recomendações literárias. Também há indicações de filmes, receitas culinárias, lugares para conhecer e, até mesmo, lugares para transar. Antes de falecer, quem sabe tais autores indiquem como encontrar o par perfeito, para tanto...


Assim a vida ficou mais fácil. Já não há mais dúvidas quanto ao que ler, ver, comer, beber ou encarar no sexo. Na era da globalização, sábios experimentam e prescrevem o essencial para a massa. Escolher não é mais preciso. Talvez o livre-arbítrio tenha sido relegado – se é que não vai sumir do dicionário, em breve – ao momento em que seguiremos as imposições do roteiro; no palco miserável de nossas vidas anônimas.


Creio que começarei com os 1001 vinhos para beber antes de morrer. De repente eu entro num curso de enologia, e aprendo essa arte sem passar pelo coma alcoólico. Será que quem bebe vinho chique é considerado alcoólatra? Você disse não?! Ainda que beba todos os dias? Sendo assim, posso unir o agradável ao útil, segundo meus amigos pinguços, que ouvem de seus médicos a recomendação de tomar um cálice de vinho tinto por dia. Nenhum médico, branco ou tinto, me receita a iguaria. Pelo contrário: eles dizem que devo me abster até de algumas uvas (por intolerância alimentar).


Vocês conhecem o "Jogo dos Sete"? A brincadeira consiste em mencionar sete itens, em cada um dos cinco blocos, de coisas que pretendemos fazer antes da morte. Logo, cinco vezes sete não são sete respostas, mas, sim, trinta e cinco. Para não me furtar totalmente à temática do jogo, eu responderia que a primeira coisa a fazer, antes de morrer, é ganhar na Mega-Sena sozinha. E as outras? Bem, só respondo após concretizar a primeira!

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cinema em 61"

Por Amilcar Neves*

 
 
O assunto surgiu ao acaso no sábado anterior, durante o jantar de aniversário da Maria Lúcia: o Antônio, marido dela, mostrava-se preocupado com o destino da televisão "velha", comprada em 2002, agora substituída por um modelo de, sei lá, plasma, visor de cristal líquido ou diodo emissor de luz, com tela larga feito cinema e capacidade "full HD". Aparelho de estimação, o receio dele era que a peça substituída, e ainda em perfeito estado de funcionamento, se deteriorasse rapidamente pela proximidade do mar e pelo fato de ficar parada, às traças, aranhas e baratas, num canto qualquer da espaçosa garagem da casa deles em Jurerê. Comentou que oferecera o receptor de graça mas todos recusavam o mimo: ou porque já tinham produto similar ou por não disporem, em casa, de espaço suficiente para aproveitar os benefícios da telona.
 
Havia ainda a questão do peso, o Antônio não deixava de esclarecer: precisou de quatro homens jovens, na plena força dos músculos, para baixar pelas escadas a enorme estrutura, muito fácil de ser deslocada sobre superfícies planas horizontais graças à existência de sólidas rodinhas, recurso, porém, inútil nas transposições entre planos. O que não podia era conceber que sua tevê de 61 polegadas de tela plana se perdesse de forma tão inglória e melancólica, podre e esquecida pelos cantos.
 
O primo do Antônio e a mulher do primo se entreolharam e, quase ao mesmo tempo, perguntaram se era verdade mesmo que ele pensava entregar o aparelho de graça e qual seria o perfil do eventual beneficiário. Na sexta-feira seguinte, definidos todos os detalhes, a máquina foi transportada, instalada e testada, com leitores de DVD e de fita VHS conectados a ela. A sala que recebeu a maravilha foi redecorada, com todos os móveis mudados de lugar (paradoxalmente, deixando o espaço mais livre do que antes da chegada da televisão).
 
De repente, bateu no casal uma febre de cinema e musicais: da sexta até o domingo, muita coisa desfilou pelas 61 polegadas: astros e estrelas, cantores e cantoras, músicos e músicas. Filmes venerados saltaram de gavetas e armários, outros foram baixados da Internet e gravados em DVD.
 
Consta que já organizam uma programação de dar inveja a muito cinéfilo de carteirinha. E, enquanto aguardam a Copa do Mundo, fazem o "esquenta" assistindo aos jogos do Avaí numa tela finalmente compatível com o futebol do time.

*Crônica publicada no jornal "Diário Catarinense" de 27.01.10

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Esboço

Por Fabio Ramos
 
 


escreva no mármore
teu otimismo
 

junto
da
gratidão
e
de
tua fé
 

marque
a
lápis
teus medos
 

esfregue a borracha
na vergonha
 

use
o corretivo
no
atropelo
 

passe
tua
vida a limpo